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Cidades e datas

Campo Grande

Centro Cultural José Octávio Guizzo

19 DEZ — 19 FEV
Ter a sab, 9h — 18h
Quintas, 9h — 20h
Entrada gratuita

A FERRO E FOGO, por Ulisses Carrilho

“Muita coisa importante falta nome”. Quem despontou tal frase foi Riobaldo, ex-jagunço que relembra suas lutas, seus medos e seu amor reprimido em Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, clássico da literatura brasileira. Para outras coisas, no entanto, os nomes sobram. Uma delas, infelizmente, é a violência, que tem muitas faces e estratégias.

Ao falarmos de arte popular, um termo torna-se fundamental – e, como todo conceito, aqui apresenta-se em disputa: o povo. Em A ferro e fogo, manifestamos nosso elogio à insubordinação da população brasileira a partir de suas várias urgências, causas e representações – aqui, as plurais e diversas cores e tintas, salvaguardadas pelo Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil, apontam para o risco das generalizações. Tal termo francês, naïf, se traduzido literalmente, significa ingênuo. Nosso convite àqueles que visitam esta mostra é desconfiar desta ingenuidade e perceber em cada fatura a densidade das denúncias presentes nestas telas. Percebemos que, assim como nas revoltas populares, as tintas são um meio de mudar o mundo – confiando na arte, na memória e na representação.

A história de nosso país, o Brasil, é marcada pelas lutas nada ingênuas. São inúmeras revoluções, revoltas e conflitos que marcam os capítulos de nossas histórias. A imagem de um país pacífico, de população cordial, desfaz-se a cada dia nas telas de celulares ou páginas de jornais. Não poderia ser diferente: marcado pela violência colonial, pelo extrativismo, pelo projeto de manutenção da desigualdade e pelas discussões em torno da legitimidade de um povo frente ao monopólio dos poderes, esta história, caso fosse narrada de maneira pacífica, ignoraria a força de uma população que ousou batalhar pela sua importância, pelo seu poder.

A ferro e fogo, o título desta mostra, aparece aqui como um nome que faz as vezes de dois: “A ferro e fogo não dá / Com tanta indiferença vendo a vida passar / Tropeços e tropeços, pedras no meu caminho”. Canção do imaginário popular que marca a passagem do século XX ao XXI, estrondoso sucesso da dupla Zezé di Camargo e Luciano, a música é um fenômeno da cultura de massa: narra as mazelas que assolam a vida de um indivíduo. Da vida dura, no campo social, à vontade de ter o ser amado, na esfera pessoal. Mas esta expressão também deu título a outra obra com proximidade histórica à dupla sertaneja. Lançado em 1996, “A ferro e fogo”, livro de Warren Dean, conta a história e a devastação da Mata Atlântica brasileira. No enredo do livro, somos lembrados de que um dos primeiros atos dos portugueses, ao chegarem ao Brasil em 1500, foi abater uma árvore para construir a cruz da primeira missa. Esse gesto, considerado premonitório, teria feito, segundo o autor, a primeira vítima da ocupação europeia da Mata Atlântica, que cobria boa parte do território brasileiro. Nos cinco séculos que se seguiram, cada novo ciclo econômico de desenvolvimento do país significou mais um passo na destruição de uma floresta de um milhão de quilômetros quadrados – hoje reduzida a vestígios. Tal fato preocupa não apenas os milhões de brasileiras e brasileiros, mas toda a comunidade internacional que reconhece o protagonismo que esta terra tem para a preservação dos biomas e das condições de vida mundo afora.

A ferro e fogo firma-se como homenagem à insubordinação do povo brasileiro que, por diferentes ciclos de suas economias e histórias, exercitou suas alianças em lutas comuns – desde a manutenção de suas condições de trabalho até o respeito por seus costumes e crenças; da preservação de terras e animais até a proteção contra a violência policial. Tal verve aguerrida, presente em mentes e corações inquietos, possibilitou conquistas que mantiveram o estatuto da cultura popular – termo amplo, complexo e estigmatizado – aceso como o fogo, apesar das tentativas de domesticação da pluralidade da cultura popular brasileira – aqui aparece, sob armas, a metáfora do ferro.

Nesta exposição podemos ver juntos como as paisagens, as geografias e as representações de natureza são marcadas não apenas pela riqueza natural, mas também pela ação do humano, tornando cada vez mais complexas as ideias de natureza e cultura. Neste sentido, percebemos um país marcado pela força de seus cenários ricos em flora e fauna, mas também pelo esforço de trabalhadoras e trabalhadores em construir um país mais justo em oportunidades. As obras de arte produzidas por artistas autodidatas, que não tiveram acesso ao ensino formal em arte, muito embora tenham sido produzidas no passado, buscam dar densidade ao intenso agora. Foi no mesmo livro de Guimarães Rosa que pudemos ler: “– Um dia ainda entra em desuso matar gente”.

Campo Grande

Centro Cultural José Octávio Guizzo

19 DEZ — 19 FEV
Ter a sab, 9h — 18h
Quintas, 9h — 20h
Entrada gratuita

Lista de artistas

Agostinho Batista de Freitas
Ana Camelo
Aparecida Azedo
Camilo Tavares
Carmello Senna
Dalvan
Dil
Dulcinéa Brito
Fábio Sombra
Gerardo de Souza
Gerson
Helena Coelho
Helena C. Rodrigues
João Alves
Jonathas de Andrade
Lia Mittarakis
Mabel
Maria Lia Soares
Miranda
Odoteres Ricardo de Ozias
Pedro Paulo da Conceição
Sabóia
Silvia de Leon Chalreo
Tiita
Ubiraci Pinto
Waldomiro de Deus
Zé Periquito

Vídeos

Ficha técnica

DIREÇÃO EXECUTIVA E IDEALIZAÇÃO

(A-ponte)
Fabio Szwarcwald

REALIZAÇÃO

Ikigai Produções
Ana Carolina Iglesias

PRODUÇÃO EXECUTIVA

RKF Consultoria
Patricia Moreno
Priscila Moreno

CURADORIA

Ulisses Carrilho

PRODUÇÃO

Faceta Produções
Izabel Campello

PRODUÇÃO LOCAL

André Tristão
Assistente / assistant:
Marcus Vinicius Perez

PROGRAMA EDUCATIVO

Janaína Melo

IDENTIDADE VISUAL E PROJETO GRÁFICO

Rita Sepulveda
Luiza Quentel

ARQUITETURA

Estúdio Gru
Jeanine Menezes
Assistente: Lia Untem

ILUMINAÇÃO E AUDIOVISUAL

Primeira Opção / MMV

MUSEOLOGIA

Euripedes Junior
Sara Bernal

MONTAGEM

Anderson Nunes Ortiz
Assistente / assistant:
Giovano Carvalho Nunes

FOTOGRAFIA DAS OBRAS

Jaime Acioli

CENOGRAFIA

Pedro Modesto - Marcenaria
André Vieira - Pintura
Kompary Comunicacao Visual Ltda - Serralheria

SINALIZAÇÃO

Kompary Comunicacao Visual Ltda

TRANSPORTE

Alves Tegan

SEGURO

Howden Brazil

REVISÃO E TRADUÇÃO

BR75 texto | design | produção

AUDIOGUIA, AUDIODESCRIÇÃO E LIBRAS

Inclusive Acessibilidade

DESENVOLVIMENTO DO SITE

Mário Neto

COMUNICAÇÃO

OZ Comunicação
Domi Valansi

ASSESSORIA DE IMPRENSA

Monica Villela
Isabela Ferreira

ASSESSORIA JURÍDICA

Ernesto Borges Advogados
Marina Mandetta

AGRADECIMENTOS

Museu Internacional de Arte Naïf do Brasil
Jacqueline Finkelstein
Amparo 60
Casa Triângulo
Galeria Nara Roesler